quarta-feira, 19 de abril de 2017

segunda-feira, 17 de abril de 2017


Conheci Maria em 2010 numa empresa que trabalhava. Mulher guerreira que passou toda a sua vida trabalhando para sustentar os filhos que hoje são formados em "doutores", como sempre falava. A vida seguia o curso normal e o sorriso sempre estava lá, em seu rosto. Mulher de 44 anos pequena e ágil. Sorria sempre. Prestativa, sua presença era constante entre todos os colaboradores.

Um dia Maria foi chamada a delegacia e nunca mais voltou a ser a Maria que conhecemos. Seu filho estava preso por tráfico de drogas. O seu título não serviria para retirá-lo de uma vida que se desenhava dali por diante. Preso, acusava Maria por ser pobre e infeliz. Pela sua vida desregrada e sem motivação. Preso, apenas via Maria como a única responsável por tudo que estava passando. Maria assumiu uma culpa que não era sua.

Morreu em 2012 mais deixou uma carta. Destruída por um remorso que não era seu. Acreditou ser a única culpada por seu filho não ter sido feliz o quanto merecia. Maria não sabia escrever, então ditou essa carta com toda sua dor de mãe, diarista e lutadora para que eu pudesse transcrever:

"Sou Maria. Maria como tantas Marias que não sabe escrever e nem ler. Que trabalhou uma vida inteira para que meus filhos pudessem ser "dotores". Mas não consegui ser aquilo que eles precisavam. Errei algumas vezes quando cansada deixei de acompanha-los nas festinhas dos amigos. Errei quando não conseguia ensiná-los o trabalho de casa. Apesar de trabalhar por mais de 14 horas por dia não consegui comprar aquele tênis da moda que eles pediam. Mas tentei. Tentei por anos a fio ser a melhor mãe. Não deixar que meu barraco, com poucos recursos pudesse impedir deles crescerem e serem alguém melhor do que eu. Acho que algumas vezes acertei. O erro maior foi quando meu filho entrou por um caminho escuro. Então eu via que o perdia a cada dia. Assim foram meu últimos dias... Perdendo a saúde, que já era fraca, por uma culpa tão grande por não ter sido a melhor mãe que eles mereciam. Desculpe. A vida me ensinou assim. "


Maria, a culpa não era sua. Nunca foi. Todo o esforço que fazemos pelo outro contribui para uma evolução maior de nosso espírito. Você foi a melhor pessoa que conheci. Todo seu trabalho não foi em vão. Te fez luz. Infelizmente a quem você dedicou seu amor não soube entender e aproveitar os melhores momentos que recebeu. Pior para eles... A vida não ensina com o mesmo amor. Quanto a você Maria, tenho certeza que irá se livrar dessa culpa que nunca foi verdadeira. A cada dia, em cada momento...aprendemos que nossa recompensa por darmos carinho e infinitamente maior do que o reconhecimento de quem o recebe.
Siga em paz.

Elaine Souza

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